“Ollas Comunes” como espaço de representação feminino e feminista em Lima/Peru

um relato de experiência no contexto da pandemia de Covid-19, aportes desde a determinação social em saúde

Autores

DOI:

https://doi.org/10.14295/jmphc.v17.1485

Palavras-chave:

Segurança Alimentar e Nutricional, Fome, Proteção Social em Saúde, Participação da Comunidade, América Latina

Resumo

A pandemia de Covid-19 teve seu início na China, alastrando-se pelo mundo de maneira rápida, com sinais e sintomas respiratórios leves, moderados ou graves, levando a órgãos internacionais de saúde como Organização Mundial de Saúde – OMS e Organização Panamericana de Saúde – OPAS a estabelecer medidas para mitigar o aumento do número de indivíduos contaminados, e com isso, o número de mortes por Covid-19. Ações como higienização das mãos com água e sabão ou álcool em gel a 70%, uso de máscaras de proteção, além do distanciamento social, foram adotadas em países da América Latina e Caribe, sendo Peru um deles. Mesmo com o desconhecimento inicial a respeito do vírus SarsCOV-2, identificou-se que a história natural da doença se desenvolvia em 14 dias, com a necessidade de isolamento de indivíduos sintomáticos e acompanhamento para possível hospitalização de casos moderados a graves. Diante disso, o governo peruano impôs um severo controle de movimentação de pessoas em todo o país, deixando ruas vazias, fechando serviços comerciais não-essenciais e tentando identificar de forma precoce casos de Covid-19 para acompanhamento e tratamento. Porém, a Determinação Social da Saúde – DSS no Peru trouxe vários fatores limitantes e complicadores para a contenção da movimentação de pessoas nas primeira e segunda ondas de contaminação pela doença. A DSS aponta as vulnerabilidades de um grupo social ou de toda uma população, indicando que pessoas com situação mais vulnerável estejam em favelas e comunidades, por exemplo. No Peru, a DSS revelou graves iniquidades existentes na habitação, saneamento, educação, emprego e vulnerabilidade econômica. Economias familiares frágeis, moradias insalubres e superlotadas de pessoas, falta de estabilidade financeira e econômica do país e de empregos formais, tendo como consequência uma grande massa de pessoas sem contas formais em instituições bancárias, fizeram com que a entrega de um bônus financeiro emergencial se tornasse em uma fonte de contaminação, pois os indivíduos precisavam sacar o dinheiro nessas instituições, com longas filas e ambientes lotados. Soma-se a informalidade e a necessidade de trabalhar para ter o mínimo para sobreviver, fazendo com que muitos indivíduos rompessem a quarentena e saíssem para as ruas. Além disso, outra grande questão foi o abastecimento de água potável para a população periférica, pois se os centros de saúde pararam suas atividades por falta de abastecimento adequado, assim também a população das regiões nas quais esses centros se localizam sofreram com o mesmo problema. Diante de tantas questões, as populações periféricas da grande capital Lima e das províncias no interior do país foram as mais afetadas, por não terem algo para comer, e que quando tinham, não tinham qualquer segurança alimentar do que estavam consumindo. Nessa perspectiva, as “Ollas Comunes” (Cozinhas Comunitárias peruanas) surgiram e se estruturaram a partir da colaboração e solidariedade de famílias de uma região mais vulnerável. Esses locais começaram com a arrecadação de alimentos e equipamentos doados por cada família da comunidade e da empresa de saneamento básico local (SEDAPAL), fazendo com que mais pessoas pudessem se alimentar, mesmo que com pouco. Com uma meta diária de alimentar aproximadamente 70 pessoas, algo como 16 famílias, o cardápio sempre é planejado e organizado de forma muito simples: à base de batatas brancas, cebola, legumes, arroz, macarrão, às vezes ovos, e em ocasiões especiais, ossos de frango. Em meados de 2020, quando decretado estado de emergência pela chegada do novo coronavírus ao Peru, como o fechamento de ruas e postos de trabalho, ninguém podia sair para trabalhar, fazendo com que mulheres dos altos cerros de toda Lima encontrassem maneiras de ajudar outras famílias próximas a sobreviver. No distrito de Villa Maria Del Triunfo, havia sete zonas: Mariátegui, Cercado, Nueva Esperanza, Tablada, Inca Pachacútec, José Galvez e Milenio. Na Olla Común Nueva Esperanza del Peru, baseada na experiência de frequentar e cozinhar com suas integrantes, e ainda que seja um ambiente denominado feminino, pode-se perceber um ambiente de acolhimento para todas as pessoas, um espaço simples, com uma infraestrutura mínima para os trabalhos de preparo, cozimento e distribuição, há um armazém para estoque de alimentos conseguidos com doações e envios governamentais, um banheiro, um reservatório para armazenar água em caso de interrupção do abastecimento e um ambiente anexo para acolhida formativa de estudantes do curso de Nutrição de uma universidade privada. As mulheres estão nas comissões que presidem as cozinhas comunitárias e também são elas que fazem a compra, o manejo e recebimento de doações, o preparo e a cocção dos alimentos – reafirmando o seu papel na reprodução social da vida, onde que quer seja. Mas, para além disso, há solidariedade entre todas elas. As mulheres se apoiam tanto em relação à comida que é produzida, sem uma divisão necessária de tarefas para cada uma, mas também em relação às necessidades de vida de cada uma delas. Os filhos frequentam a cozinha comunitária, cozinham com suas mães, quando são bebês, uma ajuda a outra a cuidar da criança enquanto a mãe faz a sua parte no preparo dos alimentos. Ou ainda, se uma das mulheres necessita resolver alguma questão fora da comunidade, mas não consegue quem cuide de seus filhos, as outras mulheres se prontificam, tanto durante o serviço da cozinha como fora dele, a cuidá-los. Percebe-se então um ambiente que tem princípios de comunalidade e solidariedade, além de princípios feministas como igualdade de gênero, justiça reprodutiva, combate à violência e autonomia feminina, ainda que não sejam expressos de maneira explícita, bem como a interseccionalidade. Nas cozinhas comunitárias peruanas, as mulheres têm a liderança, o respeito e a valorização de toda a comunidade, tanto pelo fato de estarem cozinhando para quem mais precisa como também por se apoiarem e se ajudarem na resolução dos problemas de vida umas das outras. Conclui-se que as mulheres, no contexto das “Ollas Comunes” no Peru, evidenciam o seu papel econômico e político na reprodução da vida dentro do sistema capitalista.

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Publicado

02-02-2026

Como Citar

1.
Souza Neto AC de, Carnut L, Guerra LD da S. “Ollas Comunes” como espaço de representação feminino e feminista em Lima/Peru: um relato de experiência no contexto da pandemia de Covid-19, aportes desde a determinação social em saúde. J Manag Prim Health Care [Internet]. 2º de fevereiro de 2026 [citado 3º de fevereiro de 2026];17(Especial 1):e016. Disponível em: https://www.jmphc.com.br/jmphc/article/view/1485